O Brasil é um país de inúmeros ritmos. Os que não conhecem nada da música produzida pelos brasileiros podem achar que é apenas a terra do samba, mas basta alguma pesquisa para aprender que o repertório é vastíssimo. Toca-se de tudo. E geralmente muito bem. Claro, alguns ritmos são mais populares que outros. E é talvez por isso, já que aqui o jazz está entre os menos conhecidos, que o país ainda não descobriu, como deveria, a baiana Rosa Passos. Em compensação, a cantora já é considerada, no resto do mundo, uma das principais figuras do jazz contemporâneo.
O jazz de Rosa Passos, no entanto, carrega o sotaque brasileiro. A cantora explica que com o amadurecimento do trabalho, descobriu uma maneira de unir o ritmo nascido em Nova Orleans com a brasileira bossa nova. “Eu acho os dois muito próximos. Costumo dizer que a bossa nova é a prima do jazz e creio que com essa fórmula meu trabalho se tornou internacional, com suingue, mas sem perder a brasilidade.” Essa mistura, acredita Rosa Passos, é que abriu a ela as portas à música do mundo.
O namoro da cantora e compositora com a música começou ainda em Salvador. Aos cinco anos, com o apoio dos pais, já dedilhava no piano. Um tempo depois, foi apresentada aos discos de João Gilberto e Tom Jobim. Trocou os teclados pelas cordas do violão e já em 1972, com a música Mutilados, venceu o Festival da Universidade da Bahia. O primeiro disco foi gravado em 1979, mas as voltas que a vida dá levaram Rosa Passos a suspender a carreira para cuidar da família.
O recomeço foi em 1985. Dois CDs foram gravados – Curare, em 1991, com clássicos da música popular brasileira, e Pano pra Manga, em 1996. Neste disco, a maioria das músicas é de Rosa, em parceria com Fernando de Oliveira. Ainda em 1996, recebeu do músico brasileiro Oscar Castro-Neves o convite para se apresentar numa noite dedicada ao Brasil no Jazz at the Bowl, na Califórnia. No ano seguinte, o cantor norte-americano Kenny Rankin gravou duas músicas de Rosa, com a participação da cantora.
Rosa Passos conta que quando chegou aos Estados Unidos, os discos gravados por ela já tocavam nas rádios de lá. “Os meus discos chegaram primeiro no mercado internacional. No mercado americano e no mercado europeu.” De acordo com a cantora, os críticos de jazz estadunidenses passaram a fazer bons comentários do trabalho e com isso os convites apareceram. “Comecei a ser chamada para os grandes festivais na Europa e nos Estados Unidos e fui. Aí, não parei mais. São 15 anos viajando muito.” Nessas andanças, Rosa Passos já se apresentou nos quatro cantos do mundo. Em 2001, após um show em Nova Orleans, recebeu o convite para gravar o disco Me and my heart, lançado em 2002, com a participação do baixista Paulo Paulelli. Naquele ano, foi ouvida por um público de seis mil pessoas no Lincoln Center, em Nova Iorque, em show com outros músicos, num tributo a Elis Regina.
Com o álbum Amorosa, Rosa Passos homenageou João Gilberto, outro grande nome da música brasileira e uma reconhecida influência na carreira da cantora. A baiana admite, porém, que as grandes divas do jazz deixaram marcas mais profundas em sua alma musical. “Escuto muito Nancy Wilson. Com a Ella Fitzgerald e Beth Carter, eu aprendi a articulação rítmica, e não posso me esquecer da Billie Holliday, que tinha uma técnica muito própria.” A técnica, diga-se de passagem, é uma enorme inquietação de Rosa Passos. “Eu sou muito preocupada com a dinâmica da música. Com a estética, a respiração, a dicção. É preciso dissecar a música com cuidado.”
Missionária da música
Tamanha preocupação tem um bom motivo. Rosa Passos guarda um enorme respeito pelo talento que tem. “Eu sou uma missionária da música.” A cantora encara a música como uma entidade. “Ela não escolhe qualquer um. Quando ela escolhe, a gente tem uma responsabilidade sobre tudo que vai fazer em relação a ela”, explica. Afirma que quando participa de oficinas com alunos, faz questão de ressaltar a importância de se cantar com o coração, “porque a música é bela, por si sozinha. Ela dá tudo para a gente de bandeja. É só você ter a responsabilidade em pensar que você é um veículo condutor. A música não é sua.”
Rosa Passos já lotou o Carnegie Hall, em Nova Iorque, em um show de voz e violão. Os ingressos se esgotaram quatro semanas antes do espetáculo. Recebeu há dois anos o título Doutor Honoris Causa da Berklee - a Universidade de Música de Boston, nos Estados Unidos. Foi a primeira brasileira a ganhar a condecoração, que é atribuída às personalidades que se destacam pelo saber ou pela atuação em prol das artes musicais. Cantou para os reis da Espanha. Encantou os japoneses. Mas tanta dedicação tem um custo. Em média, são cinco ou seis turnês por ano. Em cada uma, são 40 dias fora de casa. O corpo cansou e a cantora resolveu tirar umas férias. Ficar bem quietinha, em Brasília, a cidade que escolheu para morar.
A ideia é esticar o recesso até os meados de 2010. Os planos, porém, já pipocam. Apresentações na Europa estão agendadas. Outra, mas no Lincoln Center, prevista. Aqui no Brasil, a proposta é a gravação de um disco em homenagem ao cantor e compositor Djavan, incluindo convite para shows no Canecão, no Rio de Janeiro, e a gravação de um DVD. Pelo jeito, em breve Rosa Passos vai, novamente, pegar o pó da estrada.