Uma imbatível versatilidade com a bola nos pés tornou o Brasil conhecido no planeta como o maior celeiro de astros de futebol, capaz de ostentar títulos como o de pentacampeão do mundo, escalar ídolos nos principais times da Europa e da Ásia e figurar, por antecipação, como um dos finalistas da Copa deste ano na África do Sul. A versatilidade em fontes de energia ameaça tirar do futebol brasileiro a exclusividade desse apanágio no século 21. É difícil imaginar uma outra economia capaz de jogar ao mesmo tempo em tantas posições na corrida para redefinir a matriz sustentável do nosso tempo. Mais que isso. O Brasil é a única das nações industrializadas que de fato tirou a agenda da energia alternativa do laboratório para torná-la um insumo rotineiro na vida nacional.
Cerca de ¼ da frota brasileira de 24 milhões de automóveis é formada de veículos flex-fuel, que rodam com gasolina ou etanol, e 65% dos seus proprietários adotam a segunda opção. O país já substitui 25% da gasolina com 17 bilhões de litros de álcool produzidos por cerca de 340 usinas em 2,5 milhões de hectares. O conjunto representa apenas 0,5% da área agrícola brasileira, enquanto nos EUA o etanol de milho usa 3,5% das terras para substituir apenas 0,5% da gasolina. No caso da União Européia seria preciso ocupar quase 75% de seu espaço agrícola para obter um volume de biocombustível suficiente para cortar em apenas 10% o uso de gasolina e diesel.
A exemplo do que acontece muitas vezes no campo de futebol, a competitividade brasileira nessa área só pode ser burlada por intervenções de baixo fair play, como é o caso da imposição de barreiras tarifárias sobre o etanol da cana-de-açúcar – que custa 50% menos que o similar norte-americano e é 30% mais barato que o europeu. A febre de fusões e o ingresso de capital estrangeiro na indústria alcooleira do país parecem indicar que os mercados, a exemplo do que ocorre também nos gramados, não acreditam numa retranca tarifária capaz de resistir indefinidamente à pressão da competitividade brasileira.