País ganha destaque na imprensa internacional como modelo de sucesso graças à economia robusta sustentada por uma política de expansão do mercado interno
O investidor estrangeiro ainda aturdido pela crise que ceifou 16 milhões de empregos no planeta em 2009, talvez tenha dificuldade para entender de que mundo trata o noticiário econômico brasileiro da atualidade. Numa única edição do início de abril, por exemplo, o austero jornal Valor Econômico, de São Paulo, listava as seguintes manchetes pinçadas aleatoriamente de algumas seções: “Fábricas de vagões recuperam encomendas e investem”; “Venda de PCs cresce 33% no 1º trimestre”; “Múltis investem na produção de vacinas no país – segmento cresce 16%”; “Indústria de brinquedos cresce 8% e fatura R$ 4,5 bi”; “Suíça quer atrair bancos brasileiros”... Coincidência? Então, que tal a edição do dia seguinte do mesmo conceituado jornal: “Crescimento consolida índice de desemprego em nível mais baixo”; “TV digital atrai fabricante italiana de transmissores ao país”; “Construtoras voltam a olhar para a classe média”.
E isso não apenas na imprensa local. Há uma crescente demanda pela palavra Brasil no noticiário econômico internacional. No final de 2009, o comentarista Michael Skapinker, do Financial Times, caracterizou-a assim: “o Brasil será a grande história de 2010”, e “a potência do século 21 a se observar” (20/10/2009). Não por acaso o diário britânico prepara o terceiro caderno especial sobre o país em seis meses. O mesmo entusiasmo ocuparia as páginas do Wall Street Journal, em 23 de março de 2010: “O Brasil virou a esquina e agora é uma nação de peso, ambição e fundamentos econômicos para se tornar uma potência mundial. Mas o país tem enormes desafios que precisa enfrentar até aproveitar integralmente esse potencial”.
Nem coincidência, nem generosidade. O que o jornalismo especializado ilustra é a força incontornável de uma economia que já figurava entre as 11 maiores do mundo quando sobreveio a quebra do banco Lehman Brothers, em setembro de 2008. O que se viu a partir daí consolidaria as expectativas favoráveis em relação a um mercado que enfrentou e venceu as provas cruciais do pior ano da economia mundial em oito décadas. O que emergiu do outro lado foi um caso de sucesso que está sendo apontado como uma das fronteiras mais vigorosas do consumo, do investimento e da mobilidade social no século 21.
A verdade é que na hora mais difícil o PIB brasileiro recuou apenas 0,2% sobre 2008, quando havia crescido 5,1%, e afrontou a crise com um punhado de boas notícias num momento em que a economia mundial recheava os jornais de gráficos à beira de um ataque de nervos, índices cambaleantes e cenhos franzidos a mirar um futuro com pouco mais a oferecer do que longa e penosa convalescença, ameaçada de recaídas desanimadoras.
A contrapeso de tudo isso, a engrenagem produtiva brasileira já rodava a uma taxa de expansão de 4,3% do PIB no quarto trimestre de 2009. E o contraponto verde, amarelo, azul e branco não parou mais de emitir sinais dissonantes num mundo acinzentado. Enquanto a escala social na maioria das economias industrializadas mostrava sinais de calcificação, ou sofria um torniquete abrupto, milhões de brasileiros experimentam pela primeira vez a estimulante sensação de olhar o horizonte que existe para além da sua origem de berço na escala da renda.
Os indicadores de emprego são em boa parte responsáveis por essa angulação expandida. A economia brasileira conseguiu criar mais de 950 mil vagas no mercado formal de trabalho em 2009, depois de já ter gerado 1,4 milhão de oportunidades no ano anterior. O que aconteceu em pleno olho do furacão não foi apenas uma demanda episódica por mão-de-obra, proveniente da maior liquidez injetada na economia pelo governo do presidente Lula para compensar a retração do crédito e do comércio internacionais. Nos três primeiros meses de 2010, o mercado de trabalho continuaria a esbanjar consistência nessa direção, tendo registrado uma expansão de 657 mil vagas de janeiro a março. No total, 12,6 milhões de novos holerites já foram emitidos desde 2003, quando o ex-líder metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva iniciou o seu primeiro mandato presidencial, tendo sido reeleito tranquilamente em 2006 para um novo período de quatro anos.
Um de seus maiores feitos neste mergulho desconcertante da economia mundial foi desmentir o argumento dos adversários que atribuíam a boa safra de resultados de sua administração à sorte e à generosa liquidez disponível nos mercados globais na última década. Ao reduzir os níveis de desemprego nas grandes metrópoles brasileiras para 7,4% em fevereiro, nível mais baixo desde 2002, Lula derreteu a tese da monocausalidade feita de boa estrela e dinheiro de sobra.