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Brasil exporta cada vez mais

Revista éBrasil n.1
O salto nas exportações brasileiras verificado nos últimos anos é devido, em grande parte, a um trabalho de inteligência e prospecção de mercados. Esse esforço, que envolve vários setores governamentais e a iniciativa privada, tem entre seus protagonistas a Apex-Brasil, agência de fomento à exportação que funciona de forma autônoma e é ligada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. À Frente da Apex-Brasil está Alessandro Golombiewski Teixeira, doutor em Economia Industrial e Tecnológica pela Universidade de Sussex, na Inglaterra e mestre em Economia Latino-Americana pela Universidade de São Paulo. É com ele que a éBrasil começa o debate sobre as exportações brasileiras.

éBrasil – Presidente Alessandro Teixeira, o senhor tem dito que a prioridade para esse ano de 2010 é a imagem do Brasil em áreas que apresentam grande potencial de expansão comercial. Que áreas são essas e qual a estratégia da Apex-Brasil?

Alessandro Teixeira – Nós temos uma janela de oportunidades, não porque o Brasil está na moda, mas porque o Brasil, como economia, veio para ficar. Somos, hoje, a 8ª economia, provavelmente vamos terminar o ano em 7º lugar. E chegaremos nos próximos anos à 5ª economia mundial.

Já há uma mudança significativa no conceito do Brasil no exterior. No passado, Made in Brazil era considerado um negócio barato, de baixa tecnologia, sem muita expressão. Então, a estratégia da Apex é fortalecer a imagem comercial. Nossa ação esta assentada, primeiro, num trabalho de inteligência comercial que a gente nunca teve. É forte, a gente sabe quem compete, quando compete, onde distribui, onde não distribui. Depois, nós temos três linhas de ações que qualificam nosso trabalho: promoção dos produtos e serviços, atração de investimentos e internacionalização. O objetivo é usar essa crise, essa baixa da economia internacional, para posicionar o Brasil em áreas como as de alta tecnologia, de alimentos e principalmente aquelas áreas onde o Brasil tem utilizado o design e a inovação como centro do seu conteúdo.

éBrasil – Considerando o progresso econômico da China, que tipo de segmento a Apex- Brasil planeja aproveitar melhor nesse mercado consumidor?

AT – Eu brinco sempre que a melhor defesa com a China é o ataque. Por quê? Porque se hoje ela é a maior exportadora do mundo, também é a maior importadora. É claro que não vamos concorrer com a China, por exemplo, em camisa de algodão, porque eles são bons naquilo que fazem em alta escala, dado o tamanho do mercado. O trabalho que temos é de identificação de nicho e de estratégia. A China dá possibilidade para qualquer setor brasileiro, desde o setor de cerâmica até o setor de veículos, depende da forma de se colocar.

éBrasil – Com a crise mundial há, naturalmente, uma certa retração nas compras. Mas também há novos consumidores na Ásia, África, América do Sul. Como a Apex-Brasil atua nesses novos núcleos de consumo?

AT – Nosso trabalho nos últimos anos foi feito para diversificar mercados. Essa é uma orientação do presidente Lula, desde o inicio do mandato. Porque quando chegamos ao governo encontramos uma situação que impossibilitava o crescimento. A gente assumiu em 2003 com 60 bilhões de exportação, colocávamos uma meta de 100 e falavam que éramos loucos. É claro que seríamos loucos se continuássemos dependendo de três países, EUA, Argentina e um ou dois da Europa, Alemanha e Itália, que era 85% da pauta de exportação.

A gente foi para África, América Latina, América Central, Caribe, Leste Europeu, Sudeste Asiático, Oriente Médio. A Apex fazia 550 eventos e hoje faz quase 900 ao ano.

éBrasil – Isso passa de alguma maneira pelos centros de negócios da Apex, que estão distribuídos no mundo?

AT – Passa. Os centros foram criados para serem centros de distribuição. O que nós fizemos, ao longo do tempo, foi melhorar esse sistema. Hoje nós estamos na América Central e Caribe, em Miami, em Varsóvia, que atende à Europa. Também estamos em Dubai e Pequim. E vamos inaugurar em Luanda, Moscou e Bruxelas.

Lembro que quando abrimos em Cuba, a imprensa disse que eu era comunista. Hoje, é meu melhor resultado. Porque o governo de Cuba é extremamente centralizado nas suas compras. A população cubana está em 11 milhões e recebe quatro milhões de turistas, quase a mesma quantidade de turistas que visitam o Brasil. O primeiro grande resultado nosso lá é a empresa ENS, o maior fabricante de genéricos no Brasil, que está desenvolvendo remédio para câncer de próstata e o melhor medicamento para colesterol alto, tudo em parceria com empresa cubana.

Ao criar um centro de negócios, nossos consultores identificam os compradores, sabem quais os pontos de comercialização, conhecem os competidores, então eles podem preparar um estudo de mercado. O Centro também abriga as empresas. A gente cede um espaço, pelo qual a empresa paga um pequeno aluguel para ter telefone, fax, secretária, contatos comercias etc. Diria numa analogia que isto é uma incubadora de internacionalização.

éBrasil – E as dificuldades? Persiste uma ideia no Brasil, principalmente entre os pequenos empresários, de que exportar é uma coisa muito complicada, principalmente por causa da burocracia.

AT – Acho que a imagem é verdadeira. No governo anterior, de Fernando Henrique Cardoso, ninguém era louco de exportar, porque o governo não dava nenhum incentivo. Não havia Centro, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) não financiava as exportações, o Banco do Brasil tinha uma baixa incidência, não havia incentivo.

A burocracia ainda é um grande empecilho. Agora, no processo de exportação, eu acho que o desafio do Brasil é simplificar as leis de comércio exterior. Também a infraestrutura, já que o Brasil ficou de 20 a 30 anos sem investir nada nesse setor. Não chegamos ao comércio exterior sem ter porto, aeroporto. Se triplicássemos o comércio exterior, teríamos um apagão de infra-estrutura no país. Porque não houve investimentos. Não podemos querer transportar soja, minério de ferro por via rodoviária. Indústria naval e cabotagem são setores que nós retomamos, a partir de investimentos da Petrobras. E isso leva tempo.

éBrasil – Além de presidente da Apex Brasil, o senhor está à frente da Waipa, organismo que congrega agências de promoção da exportação de todo o mundo. Qual a importância de ter um brasileiro como presidente e que balanço é possível fazer do trabalho da Waipa?

AT – Eu sou o primeiro americano a presidir esta instituição, ela sempre foi presidida pelos europeus. E eu não esperava que a Apex fosse candidata. Ocorre que, sem qualquer objetivo eleitoral, fizemos um bom trabalho na América Latina. Uma das iniciativas foi fazer road shows em todo o mundo por meio de uma parceria entre as agências da região. Esse trabalho envolve 14 instituições.  Quando me perguntam o que é integração na América do Sul, explico que temos um conselho de integração de cadeia produtiva e de complementariedade de cada país.  A Apex-Brasil foi eleita pelo Banco Mundial como a segunda melhor agência de atração de investimentos do mundo no ano passado. A Áustria é a primeira.

éBrasil – Como se dá a relação dessas 12 mil empresas com a Apex-Brasil?

AT – O setor apresenta um programa, esse programa envolve criação de marca, participação em seminários, feiras internacionais, criação de catálogos. Temos 80 setores. Por exemplo, a Abest, Associação Brasileira de Estilistas, foi criada pela Apex. Eles tem uma lista de 300 a 400 empresas, que assinam um acordo de confidencialidade que me autoriza monitorar suas exportações. Quando digo que conseguimos tocar quase 17% das exportações brasileiras, é porque eu tenho um sistema de controle, autorizado pelas empresas. Hoje, 72% das empresas ligadas à Apex são pequenas, em torno de 15% são médias, e o restante, grandes empresas.

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