(Revista éBrasil, n. 2, autor: Laís Mezzari)
Em menos de um mês, o Brasil se relacionou com as duas maiores potências mundiais, Estados Unidos e China, de maneiras semelhantes. Entre os dias 19 e 21 de março, o presidente estadunidense, Barack Obama, esteve com a família no Rio de Janeiro, com direito a uma breve passagem por Brasília. No mês seguinte, entre os dias 11 e 16 de abril, foi a vez da presidente brasileira, Dilma Roussef, visitar o país asiático. Ambas as viagens tinham o objetivo de estreitar as relações entre os países em questão e geraram acordos comerciais e de cooperação.
Em termos quantitativos, a visita de Dilma rendeu mais resultados que a de Obama. Foram assinados, ao todo, 20 acordos comerciais entre os países emergentes e um contrato de venda de 35 novos aviões pela Embraer, que já possuía sede no País, na cidade de Harbin. O contrato colabora com a manutenção da fábrica, que corria risco de fechar.
Sejam bem-vindos
Já a visita dos norte americanos gerou mais entusiasmo e relacionamento social do que resultados concretos. No total, foram assinados dez acordos e memorandos bilaterais que envolvem desde biocombustíveis até a cooperação em grandes eventos esportivos mundiais, como é o caso da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016.
Expectativas essas que, além de acordos sobre inovação, educação e combustíveis, envolviam também a queda de imposições a produtos brasileiros, conforme foi citado no próprio discurso de recepção da presidente Dilma: “para nós, é fundamental que sejam rompidas as barreiras que se erguem contra nossos produtos - etanol, carne bovina, algodão, suco de laranja, aço, por exemplo”.
A intenção dos Estados Unidos, porém, parece ser de explorar apenas um lado, apesar de reconhecer a importância da relação com o Brasil para a economia norte-americana. “O Brasil é o nosso décimo maior parceiro comercial. As exportações de produtos e serviços americanos ao País em 2010 são estimadas em mais de US$ 50 bilhões”, afirma o vice-conselheiro nacional de segurança para temas de política econômica internacional, Mike Froman, em nota na véspera da visita do presidente à América do Sul. Os próprios objetivos da viagem, explicitados pelo viceconselheiro, evidenciam sua posição. “A viagem é fundamentalmente sobre a recuperação dos EUA, as exportações do País e o papel crucial que a América Latina tem em nosso futuro econômico e nossos empregos", disse.
O presidente dos Estados Unidos deixou os objetivos mais diplomáticos. Em seu último pronunciamento ao povo brasileiro, disse que os EUA e o Brasil não devem ser parceiros "sênior" e "júnior", mas "parceiros iguais". Em compensação, entre discursos que exaltavam a democracia consolidada nos dois países, as expectativas de negócios nos setores de energia, infraestrutura e educação foram contempladas com o memorando de cooperação na organização de grandes eventos esportivos mundiais, a parceria no desenvolvimento de biocombustíveis para aviões e o estabelecimento do Programa Diálogos Estratégicos Brasil-EUA.
China: as melhores negociações
Já na viagem de Dilma à China, a presidente foi com a intenção de discutir questões econômicas com o presidente chinês, Hu Jintao, e incrementar ainda mais as relações comerciais entre os dois países. Mesmo sem os novos acordos, a China é o maior parceiro comercial e investidor estrangeiro no Brasil, chegando a atingir US$ 56 bilhões em transações comerciais no ano passado, com saldo favorável em mais de U$ 5 bilhões à nação verde amarela, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. Essas transações representaram um crescimento de 52,7% em relação a 2009 e, ao que tudo indica, o resultado deve se tornar tendência nos próximos anos.
Entre os primeiros anúncios feitos durante a visita de Dilma estava o investimento de US$ 300 milhões pela companhia de telefonia e internet Huawei para a construção de um centro de pesquisa e tecnologia em Campinas, no Estado de São Paulo. Também foi anunciada a abertura do mercado chinês à carne suína brasileira, inicialmente oriunda de apenas três frigoríficos que haviam sido inspecionados cinco meses antes, e a intenção da empresa Foxconn (que fabrica produtos da Apple) de investir cerca de US$ 12 bilhões, em até cinco anos, para a produção de iPads e na construção de uma nova fábrica no Brasil.
Apesar do viés econômico da viagem, foram assinados acordos de cooperação nas áreas de política, defesa, ciência e tecnologia, recursos hídricos, esporte, educação, agricultura, energia, telecomunicações, aeronáutica, entre outros. Inclusive a criação do Centro Brasil-China de Pesquisa e Inovação em Nanotecnologia.
Depois de firmados os acordos, a viagem terminou com um comunicado conjunto, onde a presidente Dilma e o presidente Hu Jintao reiteram o compromisso de promover "o desenvolvimento das relações bilaterais com visão estratégica e de longo alcance".