País supera confiança e vulnerabilidades para se tornar caso de sucesso no combate à crise mundial
Num mundo que ainda enfrenta os ajustes decorrentes da crise financeira de 2008, o Brasil desponta como uma das mais encorajadoras fronteiras do desenvolvimento. Organismos internacionais, como o FMI e o Banco Mundial, assim como grandes corporações, revisam para cima o PIB do país que passa a figurar nas projeções dos governantes em níveis entre 1,5 e dois pontos percentuais acima da média global, prevista em 4% pelo Fundo Monetário para 2010.
Não há uma fórmula de rigidez acadêmica que explique a singularidade brasileira no póscrise mundial. Talvez o grande segredo dessa dinâmica – que se diferencia, de um lado, pelo vigor econômico, e, de outro, pela confiança de longo prazo que desperta dentro e fora do país – seja o rumo político adotado por um presidente cujo traço de orientação mais sensível é a aversão a qualquer esquematismo subalterno e paralisante.
O Brasil de Lula – desde janeiro de 2003 – não engrossou o coro complacente à desregulação radical dos mercados financeiros, que agora é alvo de ajustes na Europa e nos EUA. Tampouco ressuscitou o centralismo estatal que orientou a agenda do desenvolvimento nos países periféricos nos anos 50. Luiz Inácio Lula da Silva costuma dizer, frequentemente, que o Brasil começou a renascer para o desenvolvimento ao incluir a luta contra a fome como a prioridade número um de seu governo. Esse compromisso, manifestado já no seu discurso de posse, externou o objetivo de assegurar a cada brasileiro ao menos três refeições por dia, e contribuiu significativamente para levar o mercado interno brasileiro à condição que hoje magnetiza investidores e analistas.
Pragmatismo político, serenidade econômica e auspiciosos atrativos de expansão futura convergem para consolidar o país como cenário de um dos mais notáveis ciclos de expansão do emprego da sua história – e possivelmente de todo o mundo neste momento. O Brasil criou este ano, até abril, mais de 960 mil empregos formais, uma média de 240 mil vagas por mês: um número sem paralelo desde 1986. Em 2009, em plena crise, foram abertas 995.110 novas vagas no mercado formal. Desde 2003, o mercado brasileiro gerou mais de 12,4 milhões de oportunidades de trabalho. E a locomotiva da inclusão produtiva não dá sinais de cessar porque – diferentemente do que ocorre no resto do mundo, exceto a China – exibe real sincronia entre uma expansão econômica forte, o incremento da capacidade produtiva e a ampliação simultânea da infra-estrutura e da logística nacionais.
Esse conjunto é que leva o ministro da Fazenda, Guido Mantega, a dizer com serenidade, na entrevista concedida à éBrasil (leia nas páginas seguintes): “Não há descompasso entre a demanda e a oferta. Nossa política macroeconômica responsável tem condições de sustentar o crescimento de forma equilibrada.” Mantega tem uma resposta convincente para quem vê com certa inquietação o forte incremento das importações brasileiras este ano – em boa parte, constituídas de máquinas e equipamentos para ampliar a capacidade produtiva: “O pré-sal ajudará [no equilíbrio das contas externas] na medida em que seu grande potencial atrairá investimentos estrangeiros”, diz, ancorado confortavelmente nos bilhões de barris de um óleo de tipo fino que se concentrou milenarmente a seis mil metros de profundidade no mar brasileiro.
Descobertas no governo Lula, essas jazidas vão, no mínimo, dobrar as reservas estratégicas do país – atualmente de 14 bilhões de barris – num momento em que o estoque petrolífero declina em todo o planeta. Ao impulso da demanda interna vem se somar, assim, uma formidável programação de investimentos em energia nos próximos anos. Petróleo e gás, leia-se, navios, sondas e logística do pré-sal, levarão a uma bateria de investimentos de R$ 879,2 bilhões prevista para a partir de 2011. Mais uma positiva singularidade verde-amarela, que contribui para reposicionar o Brasil no mundo.
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