Uma experiência brasileira no setor cultural vem fazendo sucesso e atraindo o interesse de outros países. É o Pontos de Cultura, que no Brasil já conta com cerca de 2.500 unidades. O programa inverte o tradicional hábito de o Estado levar um evento cultural pronto para uma determinada comunidade. Pelo Pontos de Cultura, é a população local que decide e realiza a ação, ou seja, interage em todo o processo, gerando melhores resultados. E com melhor aproveitamento de recursos, já que o dinheiro público vai direto à ponta do projeto, o que impede desvios em meio ao processo.
O programa chama a atenção de governos e sociedade civil em países da Europa e da Ibero-América, e vem sendo objeto de teses acadêmicas e modelo para ações governamentais semelhantes em outros países.
Idealizados em 2003, ainda na gestão do ministro Gilberto Gil, os Pontos de Cultura nasceram com o propósito de fortalecer as iniciativas culturais da sociedade brasileira dentro de uma nova proposta de gestão. E os resultados não demoraram a aparecer. Um recente estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre o programa indica que ele já alcançou diretamente oito milhões de pessoas, entre as que participam diretamente das atividades e as que assistem às apresentações artísticas ou tomam parte eventualmente de cursos e oficinas. Isso tudo com um orçamento pequeno, de cerca de US$ 33,7 mil/ano por projeto.
Interesse no Exterior
Governos, políticos, acadêmicos e entidades civis ligadas a projetos culturais de vários países se interessaram pelo Programa. Na Universidade de Berkeley, na Califórnia (EUA), existe uma cátedra sobre Cultura e Literatura Luso-Brasileira, coordenada pela professora Candace Slater, onde a experiência brasileira com os Pontos de Cultura vem sendo estudada. “Os alunos vêm ao Brasil participar de alguma atividade dos Pontos de Cultura e depois fazem um projeto falando da experiência e vendo como as teorias, que são muito bonitas no papel, são executadas na realidade”, comentou Candace.
A primeira experiência dos universitários de Berkeley com os Pontos de Cultura foi no estado do Ceará, com uma unidade que se articulava com o Museu de Paleontologia. Houve, também, trabalhos sobre cultura oral das comunidades, grupos de dança e estudos específicos sobre a atuação dos Pontos de Cultura, além da participação de alguns alunos estadunidenses em oficinas de inglês para membros da comunidade.
Inglaterra
Há cerca de 20 anos, o professor catedrático da Universidade de Londres e diretor artístico da ONG People Palace Projects, Paul Heritage, mantém um estreito convívio com a cultura brasileira. Ele conhece a experiência dos Pontos de Cultura desde o princípio e se encanta com os resultados obtidos. “O que acho interessante no programa é que o Ministério consegue, com dinheiro público, apoiar energias populares que vêm de dentro para fora. É um modelo absolutamente contrário ao clássico das artes na Europa, principalmente no Reino Unido. Os ingleses precisam aprender com os Pontos de Cultura”, avaliou Paul, que levou o modelo para seu país por meio de uma parceria com a Secretaria de Cidadania Cultural, do Ministério da Cultura. Denominado Pontos de Contato, o projeto promove intercâmbios culturais entre os Pontos brasileiros e projetos sociais no Reino Unido.
Itália
A Itália foi o primeiro país, fora do Brasil, a adotar o modelo dos Pontos de Cultura. Em uma iniciativa da Câmara de Deputados e da administração da região do Lazio, onde está situada a cidade de Roma, foi criado o projeto Officine dell’Arte, inspirado no exemplo brasileiro.
Áustria
No início deste ano foi assinado o Acordo de Cooperação Técnica entre o Ministério da Cultura e a Associação Afro-Brasileira de Dança, Cultura e Arte (Abrasa) para implementação do Ponto de Cultura Internacional Brasileiro e Afro-Brasileiro na Áustria. O projeto tem, ainda, um diferencial: não receberá qualquer incentivo financeiro governamental, apenas a chancela, e os custos da criação e manutenção ficarão a cargo dos parceiros locais. A Abrasa disponibiliza cursos e oficinas nas áreas de dança, teatro, artesanato e culinária, todos baseados nas tradições afro-brasileiras.
Ibero-América
Nos países ibero-americanos também cresce o interesse pelos Pontos de Cultura. Em uma reunião de ministros da Ibero-América e da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e do Caribe, realizada no final do ano passado no Brasil, representantes de 15 nações decidiram submeter à reunião de Cúpula dos Chefes de Estado da Ibero-América uma proposta de criação do Programa Ibercultura - nos moldes dos Pontos de Cultura -, para ser implantada nos 23 países da região. O projeto está sendo elaborado pela equipe técnica do Ministério da Cultura.
Parlasul
O Parlamento do Mercosul (Parlasul), entidade que reúne representações políticas do Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, também discute o tema. O Parlasul aprovou proposta do Senado brasileiro, que prevê a disseminação do projeto dos Pontos de Cultura por todos os países do bloco econômico. Em junho, o Conselho do Mercado Comum, órgão máximo da integração regional, vai analisar a proposta. A iniciativa é um primeiro passo para a elaboração de uma legislação regional, que defina políticas articuladas entre os quatro países do bloco, com possibilidade de ampliação para todos os países associados.
Mais do que propiciar acesso à cultura às populações mais pobres e que residem em locais mais afastados dos grandes centros, os Pontos de Cultura são uma grande lição de cidadania aos seus integrantes.