Revista éBrasil n.2
Geneviève Buffon
Nascido em Belo Horizonte, Minas Gerais, Gustavo Lins saiu do Brasil logo depois de ter se formado em Arquitetura pela Universidade Federal de Minas Gerais. “Vim a Paris para passar férias, há 25 anos, e fiquei por aqui. O fato de passar pela capital francesa – afirma Lins – é incontornável quando alguém tem a ambição de desenvolver o seu potencial criativo na área de moda”.
Na capital francesa, trabalhou durante 12 anos como modelista independente para marcas prestigiadas, como Kenzo, Jean Paul Gaultier, Louis Vuitton e Galliano. “Esta experiência deu uma segurança extraordinária e, sobretudo, uma técnica de excelente qualidade. O fato de interpretar as ideias de profissionais com tamanho talento foi despertando, pouco a pouco, o meu próprio talento. Ter feito parte desse tipo de equipe foi essencial para a minha formação profissional”, relata.
Lins começou a trabalhar como modelista autônomo para a marca Louis Vuitton, com o objetivo de capitalizar recursos para que a sua própria empresa tivesse um capital de giro inicial. Depois de nove meses, expôs sua coleção em uma galeria. “Uma loja de Tóquio, a Lift Étage, viu essa mostra e solicitou logo uma encomenda. Como a Lift é uma das melhores lojas do mundo, quando apresentei a coleção seguinte, já tinha uma referência importante”.
Apenas três anos depois de criar sua própria marca, o estilista brasileiro foi convidado pela Câmara Sindical da Alta Costura Francesa a integrar as passarelas de Alta Costura, junto com algumas históricas maisons. “Na verdade, o primeiro convite foi feito em 2005, mas não aceitei, pois achava que era muito cedo para entrar nesse grupo. Estava ainda procurando parâmetros de referimento para a marca que estava criando”, justifica. “Se o ponto de partida for mal posicionado, a marca não consegue se estabelecer e termina ainda antes de iniciar”, completa o artista. A estratégia deu certo. Lins é o único latino-americano a participar do evento de Alta Costura francesa.
Lins relata ainda as ideias e pré-conceitos que teve que superar. “A nossa cultura foi muito dura conosco. Belo Horizonte era longe do mundo, onde tudo acontecia. Para sair dali, tínhamos que ser muito determinados e competentes, caso contrário, seríamos o “jeca” da história”. A discrição e o recato dos mineiros, acrescenta Lins, provoca um nível de exigência que faz com que o trabalho seja feito de uma maneira muito rigorosa. O grande sonho do estilista brasileiro é transmitir ao Brasil todo o conhecimento conquistado na Europa. “Gostaria de levar para o Brasil o conhecimento adquirido durante esses 24 anos e permitir que a indústria de moda nascente no País eleve seu nível técnico e saiba explorar mais as próprias referências, sem querer mimetizar o que acontece no Hemisfério Norte.”
Hoje, Lins revela ter muito claro o que mais aprecia do Brasil: a energia transbordante das pessoas com riquezas naturais incomparáveis. “Muitos europeus ainda vão ao Brasil por puro oportunismo. Eles acreditam que ali a vida é mais fácil e que se faz fortuna em pouco tempo. O velho mito europeu não funciona mais para mim”.